Entre as rotinas da fiscalização tributária e o dinamismo das redações, Mozart Montenegro construiu uma trajetória singular no jornalismo paraibano. Comunicador por vocação, empreendeu no ramo das publicações empresariais, ampliando o olhar em torno do desenvolvimento econômico paraibano.
O trânsito livre entre empresários, lideranças públicas e a imprensa revelam um exímio articulador de ideias, relações e projetos.
Mozart Coelho Montenegro nasceu em 18 de abril de 1943, no município paraibano de Guarabira. O filho do médico odontologista e político, Asdrúbal Nóbrega Montenegro, e sua esposa, Estela Coelho Montenegro, viveu boa parte da infância em cidades do interior do estado, como Alagoa Grande, para onde o pai foi nomeado gestor municipal, transferido para João Pessoa quando o mesmo assumiu o cargo de secretário da recém-fundada Faculdade de Odontologia da Paraíba.
Na capital, Mozart estudou no Liceu Paraibano e, ainda jovem, colaborou com o jornal da Festa de Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade. A formação superior em Direito só veio anos depois, quando já era funcionário concursado como agente fiscal, função na qual permaneceu até a aposentadoria. Foi a partir dessa atividade, vinculada à Associação dos Auditores Fiscais do Estado da Paraíba (Afrafep), que Mozart pode alçar voo como comunicador.
Os primeiros passos foram no Jornal do Fisco, periódico de circulação mensal, criado em 1968, para divulgar legislação tributária e notícias administrativas e sociais da categoria, e que, graças à boa aceitação, só contou com oito edições, pois foi transformado na Revista do Fisco.
Foi nela que Mozart se destacou como jornalista no cenário paraibano, ao lado do primo e também auditor fiscal, Hélio Zenaide, e do jornalista Marcos Tenório, colaborador na diagramação e na elaboração de matérias, ambos já falecidos.
O jornalista Abelardo Jurema Filho ressalta a ligação harmoniosa, fraterna e de admiração mútua que manteve com Mozart desde os tempos de visitas à redação do jornal O Momento, onde já notava o perfil do companheiro para comunicação. “Mozart foi um homem de duplas e nobres vocações. No plano técnico, serviu ao Estado com retidão como auditor fiscal, compreendendo como poucos que a máquina pública só caminha quando aliada à inteligência estratégica. Mas sua alma pertencia, de fato, à comunicação. Foi no jornalismo que ele encontrou a sua verdadeira ágora. Como editor da icônica Revista do Fisco, transformou uma publicação classista em um espaço de debate econômico profundo, mostrando que a arrecadação e a Justiça Social andam de mãos dadas”, enfatiza.
As dificuldades da associação para manter a circulação da revista obrigaram Hélio e Mozart a buscarem alternativas junto ao setor público e privado para viabilizar a edição do magazine, no contexto de implantação do Distrito Industrial na Paraíba, ampliando o escopo para matérias sobre a indústria e o comércio local. Abelardo destaca a visão empreendedora do auditor-jornalista, que buscou fomentar espaços para publicação empresarial.
“Mozart Montenegro teve a sensibilidade de entender que o empresariado paraibano precisava de voz, de vitrine e, acima de tudo, de reconhecimento. Daí ,nasceu a brilhante ideia de homenagear os ‘100 Maiores Contribuintes do ICMS da Paraíba’. Uma iniciativa que começou tímida e que, há quase meio século, consolidou-se como o maior e mais prestigiado acontecimento do PIB paraibano, reunindo governantes, secretários e a nata do nosso mundo corporativo em noites de celebração ao trabalho e à geração de riquezas”, recorda o jornalista.
A diagramadora Ilka Cristina revela que começou a trabalhar com Mozart assim que concluiu o curso universitário e esteve ao lado do jornalista por cerca de cinco anos. “Ele sempre foi um comunicador e agregador e conhecia muitos empresários, com quem criava um certo laço de amizade, mas ele também vendia, conversava, divulgava a revista, fazia de tudo. Com ele, eu aprendi a ser uma pessoa determinada, porque ele nunca foi de ficar parado, sempre foi um empreendedor”, resume.
Abelardo Jurema recorda, ainda, que caminhou lado a lado com Mozart na fundação da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo na Paraíba (Abrajet-PB).
“Sua visão não conhecia fronteiras geográficas ou temáticas. Amante da Paraíba e de suas belezas naturais, Mozart percebeu cedo que o turismo era a nossa mina de ouro ainda a ser lapidada”, sublinha. “Mozart Montenegro era uma pessoa muito atuante e extrovertida e contribuiu muito com a Abrajet-PB e o turismo na Paraíba, com destaque para o grande jantar anual, que ele fazia para homenagear personalidades e empresários”, recorda a jornalista Teresa Duarte, que também integra a associação.
Ruth Avelino, jornalista de turismo e membro da entidade, não esquece o quanto Mozart estimulava e incentivava seu trabalho ao longo dos 12 anos em que esteve à frente da Empresa Paraibana de Turismo (PBTur), assim como da contribuição para o setor econômico: “O segmento do jornalismo empresarial é um filão que algumas pessoas apostam, mas nem todo mundo quer fazer. E Mozart transitava muito bem nesse espaço, pois conseguia se aproximar dos empresários que tinham um papel relevante na economia do estado, mostrando para a população quem eram as pessoas que representavam aquelas empresas”, salienta.
Espírito apaziguador
Conciliando linguagem jornalística e publicitária, Mozart esteve à frente, por quase sete anos, da revista Resumo, publicação que destacava, prioritariamente, os grupos empresariais paraibanos.
Por fim, criou o periódico Painel Empresarial, que hoje está sob a responsabilidade do filho, Emanuel Montenegro.
“A revista Painel nasceu para ser a revista do empresário, a fala do empresário. Desde menino que eu convivia com ele e os jornalistas da Revista do Fisco e depois da Painel. Papai nunca fez curso de Jornalismo, era jornalista de batente e eu fui aprendendo com ele e com essa turma. Eu não me acho sucessor dele em nada, porque eu só faço copiar meu pai e, hoje, eu estou muito em novembro do ano passado quando meu filho começou a me ajudar”, relata Emanuel.
O filho destaca o espírito conciliador como a principal característica do pai, que se demonstrava no sorriso sempre pronto e nas amizades que fazia por onde quer que passasse. Na aparência, não deixava o blazer ou paletó, ainda que estivesse sob o sol. Gostava de ler e viajar pelo Brasil. Aos domingos, ele gostava de participar ou fazer uma festa com os amigos.
Apesar de fazer publicidade para os outros, mantinha-se mais nos bastidores, sem procurar chamar muita atenção. “Era um cara que amava a vida e amava os outros, um cara humilde, devoto de Santo Antônio”, finaliza Emanuel Montenegro.
Mozart Montenegro faleceu em 27 de março de 2016, seis meses após o falecimento da companheira, deixando quatro filhos. Em homenagem ao seu fundador, a revista Painel Empresarial entrega o Prêmio Mozart Montenegro a personalidades de destaque em diferentes segmentos empresariais, durante o tradicional jantar de reconhecimento dos 100 maiores contribuintes de ICMS na Paraíba.

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